
Em 1966, Bob Dylan tinha apenas 25 anos e já era considerado um dos principais compositores de sua geração. A agenda de shows movimentava uma penca interminável de datas, a grana surgia aos borbotões, novamente ele tinha outro disco de sucesso nas paradas (Blonde on Blonde) e dia a dia, a badalação em cima do novo herói do pop americano, aumentava de forma assustadora. O baixinho trabalhava muito, comia pouco, usava drogas no café da manhã e seu pé direito pisava cada vez mais forte no acelerador. Literalmente. O divisor de águas de sua vida ocorreu em julho de 66, quando a roda traseira de sua moto Triumph, travou e o jogou no asfalto da Stricbel Road, próximo a casa do astro, em Ohaia Mountain, Woodstock. Até hoje, as circunstâncias desse acidente não foram totalmente esclarecidas. Inclusive, fontes próximas ao cantor, afirmam que o desastre motociclístico, de fato, nunca aconteceu. Mas como quase tudo que cerca a vida do bardo vira lenda, de concreto se pode afirmar que após esse episódio, Dylan resolveu dar uma parada. Ele cancelou as apresentações subsequentes e se trancafiou em seu rancho. Alguns meses adiante, recuperado do suposto acidente, afastado de toda badalação e bajulação, o grande barato na vida de Bob, era curtir a vida no campo. Ao seu lado, além da família, pouquíssimos amigos o visitavam nesses tempos de reclusão.
Dylan & o amigo George Harrison: Paz em Ohaia Mountain, Wodstock (1969) foto: divulgação.
Foi nesse período que ele começou a re-direcionar a carreira. Novas canções foram geradas no porão da Big Pink, casa onde a The Band, sua banda de apoio, estava hospedada, a poucos quilômetros de Ohaia Mountain. Desses encontros, surgiria o álbum Basement Tapes, lançado somente em 1975. E as mudanças continuavam: o próximo passo foi romper definitivamente com seu empresário, Albert Grossman. Talvez influenciado pelos ares rurais em que respirava naqueles dias, em fevereiro do ano seguinte, Dylan lançou o acústico e introspectivo John Wesley Harding. Gravado em Nashville, com músicos de estúdio residentes na capital da música country, o disco foi lançado sem um grande esquema de divulgação e consequentemente foi mau recebido por crítica e público.
Chegamos a 1969, logo no início do ano, o teimoso Dylan volta a Nashville e junta as mesmas cabeças para gravar uma nova leva de músicas. O resultado dessa junção com Kenny Butrey, Charles McCoy, Pete Drake, Charlie Daniels e Bob Wilson, foi batizado de Nasville Skyline. O bolachão, mais uma vez promovido erroneamente pela Columbia, foi vendido ao público como um álbum de música country. Esse fato, somado ao descaso do próprio artista de sair em turnê na divulgação, determinou um novo fracasso. Tudo isso aconteceu no final de uma década, até então, pra lá de promissora na vida do compositor de Like A Rolling Stone. Antes desses dois LPs, Dylan era unamidade em ambos os lados do Atlântico. Só que passado mais de 40 anos de seu lançamento, hoje, em qualquer lugar do planeta, Nashville Skyline ganhou status de obra-prima do country rock. A ficha caiu.
Cash, o homem de preto & Bob Foto: Divulgação (Columbia)
Sim, temos uma perfeita mistura de gêneros nesse trabalho. Além do rock e do country, pode-se encontrar no disco, acentuadas pitadas de blues e resquícios de folk. Tudo começa com o dueto entre Dylan e Johnny Cash, na regravação inspirada de Girl From North Country, um hit de seu segundo disco. De cara os ouvintes estranham a voz grave de Dylan, um timbre diferente, que tornava seu vocal mais bonito e adocicado. Segundo o próprio cantor, o segredo estava em intercalar as gravações com pausas para fumar um cigarrinho de artista. Além da crescente amizade entre Dylan & Cash, havia uma evidente química no encontro da dupla. Na seqüência, ouvimos a caipiríssima Nasville Skyline Rag, tema instrumental perfeito para pular fogueira em festas de São João. To be Alone With You (música que Dylan abriu seu show em 1998, no Opinião, em Porto Alegre) é o casamento perfeito entre o country e o blues. Uma guitarra malandra de Charlie Daniels, somada a um piano saltitante ao estilo New Orleans, resultam em um dos melhores números do disco, tema que hora ou outra, ainda aparece em suas apresentações. Depois, Dylan dá uma de crooner na balada inspiradíssima I trew It All Away, que chegou ao Top 10 das paradas britânicas. Ainda em clima de quermesse junina, Peggy Day fecha o lado A, mantendo o astral e o clima de festa. E de-lhe amendoim e quentão.
O lado B abre com Lay Lady Lay, um de seus clássicos absolutos até hoje. O próprio Dylan desacreditava o sucesso da canção, só a relacionando no disco, por insistência de Clive Davis, um dos executivos da Columbia. O fato é que, Lay Lady Lay, não só foi admitida no álbum, como também virou um dos mais destacados singles de sua carreira. A música havia sido composta para a trilha do filme Midnight Cowboy, mas perdeu o prazo de inclusão por atraso nas gravações. Os produtores acabaram usando Everybody’s Talking, de Fred Neil. Pior pra eles! Depois de um momento mais intimista, Nasville Skyline segue com a alegrinha One More Night, um rock básico, com vocal anasalado e leves chamuscadas de um violão country-bluesy. Tell Me That It Isn’t True é outra gema preciosa. Numa levada mais urbana, o teclado leva o carimbo sonoro do final dos anos 60. Chegando quase ao final da borda do acetato, ouvimos o blues curtinho Country Pie, que faz o preâmbulo para um dos momentos mais iluminados dessas sessões, Tonight I’ll Be Staying Here With You.

Percebam, que, ao contrário até mesmo de bandas consagradas, como Beatles e Stones (lembre-se que até eles tiveram sua fase psicodélica!), Bob Dylan nunca foi um modista, ou usou dos mirabolantes recursos tecnológicos de gravação. O artista sempre teve um pacto com a simplicidade. Nasville Skyline é prova disso.
(Texto por Peter Tramp, o bom vagabundo)


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