VA - Goin' Home: A Tribute To Fats Domino (2007) - 320kbps
Disc 1
1 - John Lennon - Ain't That a Shame
2 - Tom Petty & The Heartbreakers - Im Walkin
3 - B.B.King & Ivan Neville's Dumpstaphunk - Goin Home
4 - Elton John - Blueberry Hill
5 - Taj Mahal & The New Orleans Social Club - My Girl Josephine
6 - The Dirty Dozen with Joss Stone and Buddy Guy - Every Night About This Time
7 - Paul McCartney & Allen Toussaint - I Want to Walk You Home
8 - Lenny Kravitz with Rebirth Brass Band - Whole Lotta Loving
9 - Dr.John - Dont Leave Me This Way
10 - Bonnie Raitt - Im in Love Again
11 - Art Neville - Please Dont Leave Me
12 - Robbie Robertson & Galact - Going to the River
13 - Randy Newman - Blue Monday
14 - Robert Plant - It Keeps Rainin
15 - Corinne Bailey Rae - One Night (Of Sin)
1 - Neil Young - Walking to New Orleans
2 - Robert Plant and The Soweto Gospel Choir - Valley of Tears
3 - Norah Jones - My Blue Heaven
4 - Lucinda Williams - Honey Chile
5 - Marc Broussard - Rising Sun
6 - Olu Dara - When I See You
7 - Ben Harper & The Skatalites - Be My Guest
8 - Toots & The Maytals - Let the Four Winds Blow
9 - Willie Nelson - I Hear You Knockin
10 - Irma Thomas & Marcia Ball - I Just Cant Get New Orleans Off My Mind
11 - Bruce Hornsby - Dont Blame It on Me
12 - Herbie Hancock - Im Gonna Be a Wheel Someday
13 - Los Lobos - The Fat Man
14 - Big Chief Monk Boudreaux - So Long
15 - Preservation Hall Jazz Band - When the Saints Go Marching In
1 - Iko Iko - 4:15 2 - Blow Wind Blow - 3:14 3 - Big Chief - 3:26 4 - Somebody Changed The Lock - 2:43 5 - Mess Around - 3:13 6 - Let The Good Times Roll - 3:57 7 - Junko Partner - 4:30 8 - Stack-A-Lee - 3:29 9 - Tipitina - 2:09 10 - Those Lonely Lonely Nights - 2:32 11 - Huey Smith Medley: High Blood Pressure/Don't You Just Know It/Well I'll Be John Brown - 3:18 12 - Little Liza Jane - 3:00
The RCO All-Stars trata-se da união dos músicos favoritos de Levon Helm, ex-baterista da The Band. Nomes como Dr John (guitarra e piano), Paul Butterfield (harmônica), Booker T. Jones (órgão), Donald "Duck" Dunn (baixo), Steve Cropper (guitarra), Garth Hudson (acordião) e Robbie Robertson (guitarra) estão entre os mais conhecidos que integraram o projeto. Além deles, há também dois músicos que estiveram na The Hawks com Levon: Henry Glover (bandleader e arranjador) e Fred Carter (guitarra); e ainda Alan Rubin, Howard Johnson, Ray Kinney e Lou Marini nos naipes de metais; Emmeretta Marks, John Flamingo e Jeanette Baker nos vocais de apoio.
O resultado final foram quarenta minutos de música orgânica, que flui suavemente através das raízes americanas, alternando entre o blues e o country rock, carregadas por um groove sacana que caracterizou os Booker T & The M.G.s e a carreira do nosso bom Dr John. Os principais destaques ficam por cinta de "Washer Woman", a faixa de abertura, "Blues So Bad", a única composição de Levon Helm no disco, "Rain Down Tears", e "That's My Home", o grand finale. Aproveitem!
Primeiramente, gostaria de salientar que esta lista não obedece a nenhuma espécie de critério técnico. Não sou músico nem crítico musical, apenas um apaixonado por aquilo que entendo como música de qualidade. Portanto, devo deixar bem claro que a escolha dos discos e a ordem desta lista correspondem apenas ao meu gosto e não refletem, de maneira alguma, a opinião de todos os membros do blog. Sem mais delongas, vamos ao que importa:
1º lugar: Dr John – Locked Down
Quando ouvi o primeiro single – Revolution - do novo disco do Dr John, um dos meus maiores ídolos, no site da revista Rolling Stone nos idos de março/abril, eu pirei. Todos os dias eu precisava escutar aquela maravilha ao menos uma única vez – normalmente acabavam sendo várias audições. Quando o disco finalmente foi lançado, foi um frenesi total. Minha namorada estava recém conhecendo o som do Dr John e já estava de saco cheio dele, de tanto que repetia o Locked Down na íntegra no meu winamp.
Considero este o melhor disco da década até agora (2011 e 2012) – e acredito que será difícil aparecer algum lançamento que desbanque o novo petardo do witchdoctor Rabennack. Com faixas como Revolution, Ice Age e Getaway, Dr John consolidou seu retorno ao som da mais alta qualidade. Se vocês quiserem ler a resenha que fiz do álbum, segue o link.
2º lugar: Joe Louis Walker – Hellfire
Muitos de vocês podem nunca ter ouvido falar de Joe Louis Walker já que ele não é um nome tão conhecido por aqui – eu também não o conhecia antes de baixar Hellfire sem pretensão alguma. Vocês já podem imaginar o tamanho da minha surpresa ao ouvir o álbum, já que ele figura no segundo lugar desta lista. Walker está na ativa desde os anos 60, mas só começou a gravar em 86 e de lá pra cá, já lançou 19 discos. Uma sólida carreira que se consolida ainda mais neste belíssimo disco.
A faixa que dá título ao disco é, também, aquela que o abre. Hellfire já define o ritmo: um blues enérgico, marcado pelo excelente trabalho de Walker na guitarra, com um groove marcante e uma temática gospel. What’s It Worth explora a relação entre o órgão, instrumento tradicional do gospel, e a guitarra de Walker, criando um dueto único. Já Soldier For Jesus mergulha no groove, levando as frases religiosas num ritmo de celebração. Cada tema executado no disco vale a pena ser ouvido com muita atenção.
3º lugar: Jack White – Blunderbuss
Jack White ficou conhecido pelo trabalho ao lado de sua ex-mulher, Meg White, na dupla White Stripes. Era um som simples, meio estranho e sem baixo. Depois ele andou por aí com a The Raconteurs e a Dead Weather – nada de muito promissor, ele ainda continuava transitando pelos caminhos mais pop do rock. Todavia, ele já havia dado mostras do seu gosto pelo blues e também do talento como produtor, ao trabalhar com Wanda Jackson no ano passado. Foi por isso que quando fiquei sabendo que ele lançaria um álbum solo, fiquei na expectativa.
E não é que o cara se mostrou capaz de mudar? Unindo influências entre Led Zeppelin e o blues rural, White faz um som nervoso, às vezes com tons de insanidade, que reúne referências de vários lugares diferentes. Freedom At 21 e Hypocritical Kiss mostram um pouco disso. Já o tema título, Blunderbuss, mostra que White aprendeu bastante com Jimmy Page e seu Zeppelin de chumbo. Mas minhas faixas favoritas são a dançante I’m Shakin’ e a apocalíptica Weep Themselves To Sleep.
4º lugar: Willie Nelson – Heroes
Willie Hugh Nelson, também conhecido como o “estranho ruivo”, já é um senhor de 79 anos. Conhecido pelo seu jeito singular de cantar e pela afeição com a marijuana, Willie construiu uma brilhante carreira dentro da country music, participando do surgimento do dito “outlaw country”. Já na “idade de ouro”, Nelson mostra que ainda tem fôlego para impressionar. Ao contrário do filme dos irmãos Cohen estrelado por Tommy Lee Jones (No Country For Old Men), Willie exibe que os EUA também são um país para homens velhos.
Junto de seus filhos, Lukas (que tem um timbre vocal muito semelhante ao do pai) e Micah Nelson, e mais um time de estrelas (Merle Haggard, Kris Kristtoferson, Sheryl Crow, Ray Price, Billy Joe Shaver, Jamey Johnson e até mesmo Snoop Dogg), Willie Nelson produziu 14 pérolas do country. Num mundo como o de Nashville, lotado de gente com pouco talento e muita propaganda, Heroes soa como um alívio nostálgico. Canções como All That There Is To This Song e Just Breathe resgatam a essência do country, essência essa que Willie nunca perdeu.
5º lugar: Neil Young & Crazy Horse – Americana
Depois de oito anos sem gravar nada com a Crazy Horse, Neil Young se juntou a seus velhos parceiros para dar a luz a um belo trabalho, muito melhor do que seus últimos lançamentos individuais (como o péssimo Le Noise). Unidos novamente, sua primeira contribuição esse ano foi Americana, um disco que, como o título indica, é um tributo às raízes da música americana.
Fazendo ótimos arranjos roqueiros de canções tradicionais, Young e seus comparsas do louco cavalo conseguiram criar um ótimo clima que poderia muito bem pertencer a um disco gravado nos anos 70. Sons como Oh Susannah, Gallows Pole ou Get A Job deram sinais de que Young estava finalmente voltando ao caminho da boa música.
6º lugar: Quantic And Alice Russell with Combo Bárbaro – Look Around The Corner
Quantic, que também atende por Will Holland, é um DJ britânico que atualmente reside na Colômbia. Por lá o cara já fez diversos trabalhos, inclusive o ótimo Tropidelico, de 2007, no qual ele misturou o funk a influências caribenhas e alguns ritmos eletrônicos. Vale a pena dar uma conferida! Já Alice Russell é uma cantora de blue eye soul lá da terra da Rainha, que costuma lançar seus discos pela mesma gravadora que Quantic, a Tru Thoughts.
Juntos, eles fizeram uma união bastante acertada. Os vocais de Russell casaram muito bem com o instrumental grooveado do Combo Bárbaro, comandado por Quantic. Canções como Here Again e Look Around The Corner marcam este ótimo trabalho, que recomendo do começo ao fim.
7º lugar: Ricky Skaggs – Music To My Ears
Skaggs é um mestre do bandolim desde as antigas. Quando criança, o cara tocou com Bill Monroe e Earl Scruggs, dois dos maiores nomes do bluegrass. De lá para cá, ele próprio veio se constituindo enquanto um dos símbolos do bluegrass, ainda que tenha assumido o arriscado caminho das experimentações mais recentemente. No disco novo, Music To My Ears, Skaggs traz um prato cheio para os fãs de country e de bluegrass. Misturando uma abordagem “tradicional” com elementos mais “modernos”, ele produziu uma sonoridade bem bacana. O grande destaque fica por Soldier’s Son, gravada em parceria como Barry Gibb, ex-Bee Gees.
8º lugar: ZZ Top – La Futura
Os barbudos do Texas mostraram que ainda estão em forma. La Futura é, provavelmente, um dos melhores discos da carreira dos caras e traz um rock cru, recheado com blues, acompanhado por uma pegada firme e liderado por um belo trabalho de guitarra do grande Billy Gibbons. I Gotsa Get Paid e It’s Too Easy Mañana dão o tom do disco.
9º lugar: Bonnie Raitt – Slipstream
Bonnie vem trabalhando muito desde os anos 70, pavimentando seu caminho em várias áreas, como o blues, o country e o rock. Com um slide nas mãos, essa senhora de 63 anos veio a 2012 para sedimentar ainda mais a sua sólida carreira. Slipstream reúne todo o seu repertório de influências de sempre, apresentadas de forma suave, com um embalo maroto. As baladas You Can’t Fail Me Now e God Only Knows são, com certeza, uma boa referência do que é este disco.
10° lugar: Graveyard – Lights Out
Graveyard é uma banda sueca relativamente jovem, estão na estrada apenas desde 2006. Mas nesse tempo já lançaram três álbuns, e dois deles da maior qualidade possível. Numa linha de revival setentista, os caras unem o hard rock a um fraseado de blues, lembrando os áureos tempos do rock – mas não se enganem, eles conseguiram transcender a barreira da semelhança e criar uma identidade própria. Endless Night e Goliath ficam como uma boa introdução para o que é Lights Out.
10 melhores músicas do ano
1 – Ricky Skaggs & Barry Gibbs – Soldier’s Son
2 – Dr John – My Children, My Angel
3 – Dr John – Revolution
4 – Willie Nelson & Lukas Nelson – Just Breathe
5 - Bonnie Raitt – You Can’t Fail Me Now
6 – Neil Young & Crazy Horse – Gallows Pole
7 – Joe Louis Walker – What’s It Worth
8 – Jack White – Weep Themselves To Sleep
9 – Quantic & Alice Russell with The Combo Bárbaro – Here Again
10 – Dr John – God’s Sure Good
E eras isso! Um abraço a todos e um bom final de ano!
Já falei diversas vezes sobre Dr John e também sobre Nova Orleans. Falar do doutor e da cidade por vezes é confuso: pode ficar difícil saber onde começa um e onde termina o outro. O doutor é uma verdadeira enciclopédia da música daquele peculiar cantinho da Louisiana, cercado por águas e diferentes culturas; e para além disso, ele assume a responsabilidade de divulgar os problemas e demandas da Cidade Crescente. Em Goin' Back To New Orleans, Mac Rabennack se junta a um time local de feras da música para celebrar a tradição cultural de sua cidade natal. Em 18 faixas, Doc e seus parceiros percorrem o jazz, o blues, o R&B, a música nativa, o soul e o fonk (nome que Mac deu à sua própria sonoridade).
Seja em temas próprios (como Litenie des Saints, faixa com clima fúnebre que abre os trabalhos, e Fess Up, uma demonstração de classe à frente dos teclados), ou em versões impressionantes (como I Tought I Heard Buddy Bolden Say, composta por Jelly Roll Morton, Goodnight Irene, parceria de Leadbelly e Alan Lomax, ou You Rascal You, de Sam Theard), o que John nos mostra é uma versatilidade magistral, digna da variedade de sons de sua cidade. Todavia, o grande destaque do disco vai para sua faixa de encerramento: composta por Joe Liggins, a faixa que dá nome ao disco, Goin' Back To New Orleans, é realmente uma pérola atemporal, um verdadeiro hino.
Poucas cidades têm uma tradição tão confessa para com a música. Uma dessas cidades é Nova Orleans, chamada de Cidade Crescente. Por lá, como vocês já sabem, o jazz ainda incipiente pôde se desenvolver, se transformar e se aperfeioçar, até chegar em um de seus estágios mais bem acabados através da música de Louis Armstrong.
Cercada pelo rio Mississippi, pelo lago Pontchartrain e pelo Golfo do México, Nova Orleans é um pedacinho de terra que foi fundado por franceses, passado para os espanhóis, retomado pelos francese e depois comprado pelos americanos. Dentro desse território limitado, viveram e conviveram pessoas das mais diversas etnias e credos. A cidade é "o mundo em miniatura", como já foi descrita por um visitante europeu no século XVIII ou XIX.
Com toda essa tradição multicultural, não é de se impressionar que seu legado musical seja tão diverso quanto a cidade. Além do jazz, pulularam por lá os mais variados gêneros musicais. Tivemos um blues mais tradicional com Clarence "Gatemouth" Brown e Snooks Eaglin, e o blues mais agitado de Professor Longhair; o rock n roll/R&B de Little Richard; o cajun de Boozoo Chavis; o soul de Aaron Neville; o funk dos Meters; o fonk de Dr John... E muitos mais.
Doctors, Professors, Kings & Queens é um projeto ambicioso que foi concebido para dar conta de toda essa loucura sonora que existiu, e existe, em Nova Orleans. A coletânea juntou em 85 faixas temas que saem do jazz dos anos 20 e chegam ao blues rock moderno dos 2000, passando por uma infinidade de raridades que vieram ao mundo nesse meio tempo.
Apesar de estar dividida em quatro discos, ela está longe de ter uma organização clara. As músicas não estão separadas por gênero, o que me pareceu uma boa sacada por parde dos produtores da Shout! Factory. Na realidade, esses sons nunca estiveram segregados como se estivessem em gavetinhas específicas. Eles aconteceram ao mesmo tempo, influenciando-se um ao outro e ocupando os mesmos espaços. Essa ordem (ou a falta de uma) me parece refletir deliciosamente bem a saudável esquizofrenia do dia-a-dia.
Enfim, ouvir a coletânea como um todo é essencial, além de ser uma experiência única. Nada como passar do jazz de Sidney Bechet para o zydeco de Clifton Chenier, ou transitar entre os ritmos de Galactic e New Orleans Klezmer All Stars. A coletânea é absolutamente sensacional, e ficam aqui meus parabéns à Shout! Factory pelo excelente trabalho.
Vocês já tiveram a sensação de estarem ouvindo um disco que vai entrar pra história, mesmo ele sendo recém lançado? Pois bem, foi o que eu senti quando coloquei pra rodar o Locked Down, álbum novo do magistral Dr John - além de ter ficado absolutamente sem fôlego.
A carreira de Mac Rabennack sofreu com alguns altos e baixos, especialmente por ter sempre de viver com a comparação de cada novo lançamento com alguns de seus antigos álbuns - como Gris-Gris (1968) e In The Right Place (1972). Mas já faz alguns anos que o doutor vem acertando a mão na hora de produzir material novo, e dessa vez ele chegou ao seu ápice.
Um homem que resolveu assumir as dores públicas de sua cidade e se tornar uma instituição mítica e política da própria, Dr John vem renovando e reatualizando sua obra consagrada através de uma politização constante. Chamado a uma reposta extrema pela ineficiência de um Estado que responde mais rápido a crises internacionais do que eu ao drama de um povo que sofre desde o Katrina, em 2005, Rabennack mostra que a música tem uma utilidade pública.
O cunho político vem munindo o bom doutor com uma atualidade indispensável. Já no lado musical em si, vemos que o produtor Dan Auerbach (Black Keys) soube lidar muito bem com essas questões, trazendo-as para uma música retrô-moderno, numa fusão da fase "Night Tripper" de Gris-Gris com a do Dr John de In The Right Place.
Usando-se apenas de órgãos e deixando de lado o piano, marca registrada da maior parte da carreira de Rabennack, Auerbach e John chegaram a um resultado incrível. Acompanhados por uma banda de peso, com ótimos metais e uma cozinha matadora - no melhor estilo de Nova Orleans. Um baixo pesado acompanhado de uma bateria grooveada, ainda com o acréscimo de típicas percussões que trazem à nossa memória a época dos cantos voodoos das primeiras canções do Dr John.
O primeiro single lançado do álbum, Revolution, já tinha feito minha cabeça. Ao som da linha "Rebelion, revolution - is this the final solution?" ("Rebelião, revolução - seria essa a última solução") eu já tinha certeza de que este seria um álbum imprescindível na discografia do Doctor, assim como também para qualquer pessoa que goste de blues, R&B, jazz e fonk, como o próprio Mac define seu estilo.
Mas foi quando Ice Age que realmente fiquei pirado! A música é uma crítica direta ao governo americano, como podemos ver em "KKK, CIA, all playing the same game" ("KKK e CIA, todos jogando o mesmo jogo"). E indo para a música em si, o Dr estava pegando fogo em frente a seu órgão, produzindo um solo muito fino.
Os outros destaques do álbum ficam também por conta de Getaway, dona de um dos trabalhos mais impressionantes de Dan Auerbach à frente das guitarras; além da faixa 8, Eleggua, que traz a imagem de Dr John the Night Tripper, com toda sua influência voodoo, à nossa cabeça.
Finalizando, este aqui já é e vai continuar sendo o melhor disco lançado neste ano. E eu me re arrisco a dizer que talvez seja o melhor da década em que estamos adentrando. Da primeira à última faixa, vemos o comprometimento de um cidadão com sua cidade, vemos um trabalho musical executado com maestria e paixão.
Mac Rabennack era uma figura conhecida no cenário musical de Nova Orleans desde o final dos anos 50 como guitarrista de estúdio, num primeiro momento. Para largar a guitarra, foi necessário envolver-se numa briga para salvar um amigo de longa data e levar um tiro no dedo anelar esquerdo.
Com o fim de seus dias guitarrísticos, Mac assumiu o contrabaixo por um tempo e depois se mudou para seu instrumento definitivo, o piano. Quando encontrou o instrumento certo, também não tardou a achar a influência certa para seu estilo: um pianista local (e uma lenda do blues), Professor Longhair.
Em 1965, nosso caro doutor teve que dar o fora da cidade crescente depois de se meter em alguns problemas com a lei. O destino: Los Angeles. Mas ele não estava só - lá residiam vários músicos originários de Nova Orleans que foram fundamentais tanto para o desenvolvimento da cena californiana quanto da carreira de Mac nas terras ensolaradas do oeste.
Por um tempo, ele se manteve como músico de apoio e gravou com nomes de peso, como Canned Heat e Sonny & Cher (chegou, inclusive, a participar da trilha sonora do primeiro filme da atriz). Mas isso já não era mais suficiente para o doutor (que ainda não era doutor).
Mac, sob a batuta do produtor Harold Battiste, lançou sua carreira solo sob o personagem chamado Dr John. O jovem Malcom tirou o seu nome artístico de um praticante de voodoo de sua terra natal, Dr John Montaine. E esta escolha não foi à toa - Mac Rabennack escolheu o pseudônimo perfeito para representar o que viria a ser sua música. Junto da música, também não podemos esquecer seu visual, que também tem a influência de um grande músico americano: Screamin' Jay Hawkins.
O disco de estreia de Dr John, Gris-Gris, reuniu elementos de cânticos voodoo, ritmos tradicionais do R&B de Nova Orleans, jazz e até rock psicodélico. Um clima muito louco que não foi bem aceito na época - nas palavras do cabeça da Atlantic Records: "Como vou vender essa porcaria boogaloo?" - e o cara até não estava tão errado. O álbum não entrou nas paradas de sucesso americanas, nem nas britânicas.
Demorou para que o som viajado de Gris-Gris fosse aceito pelo público E pela crítica. Somente quando o disco foi relançado como cd, muitos anos mais tarde, que um olhar diferenciado foi dado à uma das obras-primas de Dr John. Desde sua redescoberta, Gris-Gris já recebeu ótimas notas (5 estrelas do site Allmusic, 4 estrelas da revista Rolling Stone) e também foi includído na lista dos 500 melhores álbuns da história da revista Rolling Stone (entrou na 143º posição!)
Mas voltando ao disco em si, ele traz basicamente composições próprias do doutor, algumas com a participação de Battiste, que retratam o voodoo ("gris-gris" é uma gíria da Cidade Crescente para "voodoo") e a diversidade étnica de Nova Orleans. Com climas ora soturnos, ora alegres, o álbum é uma celebração ao Mardi Gras, às tradições indígenas, às influências caribenhas e a todas as práticas religiosas que convivem na Louisiana.
Meus destaques vão para a faixa de abertura, "Gris-Gris Gumbo Ya Ya", além de "Mama Roux", "Danse Fambeaux" - e a canção que ficou mais conhecida, "I Walk On Guilded Splinters", que recebeu diversos covers, entre eles de Johnny Jenkins (versão que está na Anthology de Duane Allman).
Ontem foi aniversário de uma figuraça ímpar da música americana, mas por motivos de força maior, não pude fazer o post na ocasião. Ninguém mais, ninguém menos que Malcom John Rebennack Jr. esteve em festa ontem. Dr John, para os íntimos, completou seus 71 anos de muita música, muito voodoo e muita representatividade.
O homem que, talvez, melhor represente Nova Orleans, uma cidade onde diversas culturas se encontram, se chocam e se fundem, formando algo único e incrivelmente lindo. O som do Mac Rebennack é um símbolo disso: seu "fonk" é um misto de soul, jazz, blues, funk, "voodoo", rock n roll, música nativa americana (as tradicionais canções do Mardi Gras) e ritmos caribenhos.
Numa carreira de altos e baixos, o Night Tripper produziu algumas obras-primas. Sua estreia é absoluta: Gris-Gris é um clássico e chegou até a entrar na lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos da revista Rolling Stone. Mas hoje estamos aqui pra falar de sua fase dos anos 70, que tem como marco In The Right Place, um prato cheio de "fonk", perfeito para se dançar a noite toda.
Com o pianos afiado e preciso, os dedos místicos de Dr John Creaux destilam o mais puro ritmo em um set de 11 ótimas canções. E o LP inicia da melhor forma possível: Right Place Wrong Time é forte e agitada, quem ficar parado com ela é "ruim da cabeça ou doente do pé", como dizem em 16 Toneladas. Há ainda mais uma faixa que merece todos os destaques possíveis: Such A Night é meu som favorito dentre tudo o que bom doutor já fez. A letra safada e batida do piano convidam qualquer ouvinte a se deleitar no maior clima de Nova Orleans. Mas apesar das direções aqui dadas, ouçam cada faixa, cada batida, cada sopro ou sussurro... Nada pode ser mais apaixonante.
Fica aqui o desejo de que o bom doutor viva muitos anos mais, e com toda a saúde e música que o destino há de lhe prover! Keep on fonkin', Dr John!
Dos pântanos da Louisiania para o mundo, Dr John Creux (ou The Night Tripper, ou Mac Rebennack) vem nos trazendo o seu "fonk" sulista há quase 60 anos, dos quais, pelo menos 40 são do mais puro sucesso.
Este homem incorpora tudo o que Nova Orleans representa. O som de Dr John é resultado da mistura única de influências que transitam pelas ruas da Cidade Crescente. A música negra que encontrou a música nativa americana e flertou com a cultura creole, do voodoo caribenho.
O sr. Rebennack se tornou uma instituição viva que representa uma cidade, uma cultura. Seu som É Nova Orleans. Cada batida no piano, cada nota arrastada de sua voz é um manifesto próprio da cidade. E o bom doutor assumiu esse "fardo" para si: suas canções ajudaram a moldar o funk (ou "fonk", como ele o chama) de Nova Orleans, bem como ajudaram a cidade em momentos de crise.
Desde 2005, desde o Katrina, as coisas não andam muito bem na Cidade Crescente. O furacão deixou muita gente desabrigada, tornou a relação entre o poder estatal e a população (especialmente as minorias étnicas) muito tensas. Naquele ano, o governo americano mandava comida para o Iraque com mais prontidão do que mandava água para as pessoas de Nova Orleans.
Em seu mais recente trabalho, Dr John volta às raízes do seu estilo mas traz um elemento diferente: suas letras agora são um tapa na cara das autoridades, são a voz de uma população carente que ainda não conseguiu se reerguer. Tribal é o protesto da gente sofrida de Nova Orleans.
Só de reparar no nome da banda que o acompanha, Lower 911 (911 é o número de emergência dos EUA, bem como também a data do atentado às torres gêmeas em 2001) já dá pra notar o tom da coisa toda. Mas prestem uma atenção especial em músicas como Them e Only In Amerika e vão ver do que eu estou falando.