Vocês já tiveram a sensação de estarem ouvindo um disco que vai entrar pra história, mesmo ele sendo recém lançado? Pois bem, foi o que eu senti quando coloquei pra rodar o Locked Down, álbum novo do magistral Dr John - além de ter ficado absolutamente sem fôlego.
A carreira de Mac Rabennack sofreu com alguns altos e baixos, especialmente por ter sempre de viver com a comparação de cada novo lançamento com alguns de seus antigos álbuns - como Gris-Gris (1968) e In The Right Place (1972). Mas já faz alguns anos que o doutor vem acertando a mão na hora de produzir material novo, e dessa vez ele chegou ao seu ápice.
Um homem que resolveu assumir as dores públicas de sua cidade e se tornar uma instituição mítica e política da própria, Dr John vem renovando e reatualizando sua obra consagrada através de uma politização constante. Chamado a uma reposta extrema pela ineficiência de um Estado que responde mais rápido a crises internacionais do que eu ao drama de um povo que sofre desde o Katrina, em 2005, Rabennack mostra que a música tem uma utilidade pública.
O cunho político vem munindo o bom doutor com uma atualidade indispensável. Já no lado musical em si, vemos que o produtor Dan Auerbach (Black Keys) soube lidar muito bem com essas questões, trazendo-as para uma música retrô-moderno, numa fusão da fase "Night Tripper" de Gris-Gris com a do Dr John de In The Right Place.
Usando-se apenas de órgãos e deixando de lado o piano, marca registrada da maior parte da carreira de Rabennack, Auerbach e John chegaram a um resultado incrível. Acompanhados por uma banda de peso, com ótimos metais e uma cozinha matadora - no melhor estilo de Nova Orleans. Um baixo pesado acompanhado de uma bateria grooveada, ainda com o acréscimo de típicas percussões que trazem à nossa memória a época dos cantos voodoos das primeiras canções do Dr John.
O primeiro single lançado do álbum, Revolution, já tinha feito minha cabeça. Ao som da linha "Rebelion, revolution - is this the final solution?" ("Rebelião, revolução - seria essa a última solução") eu já tinha certeza de que este seria um álbum imprescindível na discografia do Doctor, assim como também para qualquer pessoa que goste de blues, R&B, jazz e fonk, como o próprio Mac define seu estilo.
Mas foi quando Ice Age que realmente fiquei pirado! A música é uma crítica direta ao governo americano, como podemos ver em "KKK, CIA, all playing the same game" ("KKK e CIA, todos jogando o mesmo jogo"). E indo para a música em si, o Dr estava pegando fogo em frente a seu órgão, produzindo um solo muito fino.
Os outros destaques do álbum ficam também por conta de Getaway, dona de um dos trabalhos mais impressionantes de Dan Auerbach à frente das guitarras; além da faixa 8, Eleggua, que traz a imagem de Dr John the Night Tripper, com toda sua influência voodoo, à nossa cabeça.
Finalizando, este aqui já é e vai continuar sendo o melhor disco lançado neste ano. E eu me re arrisco a dizer que talvez seja o melhor da década em que estamos adentrando. Da primeira à última faixa, vemos o comprometimento de um cidadão com sua cidade, vemos um trabalho musical executado com maestria e paixão.





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