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| Colagem de Klaus Voormann, artista alemão amigo da banda. |
Se Rubber Soul foi a revolução do som dos Beatles, Revolver é uma aprofundação adiante esse novo caminho. Ele marca a segunda metade do trabalho do quarteto de Liverpool, no qual a expressão da banda amadurece, tornando-se mais verdadeira, mais livre e menos dependente do mercado - não que os Beatles em alguma vez tiveram problemas para criar melodias interessantes.
Ainda há um pouco da sonoridade anterior - muitos vocais harmonizados e, em grande parte, a rigidez de versos e refrões e instrumentação organizados direitinho -, mas pode-se sentir um rigor autoral maior e um aumento da complexidade das composições do álbum. Especialmente em músicas como Eleanor Rigby, uma narração rica em imagens literárias que, embora sendo de autoria principalmente de McCartney, possui contribuições de todos os quatro Beatles e é instrumentada apenas por arranjos de instrumentos de corda comuns à música clássica, assim distanciando-se do rock convencional predominante na obra; o inconfundível Yellow Submarine, narrado por Ringo, e a esquisita e transcendental Tomorrow Never Knows, discutida mais adiante.
Também marcante em Revolver é a contribuição acentuada de George Harrison, que já provém a abertura com (fora o "one two three four" escondido) o rock Taxman, criticando com sarcasmo os níveis das taxas sob o governo britânico da época. Notável é a progressão de acorde presente apenas na última linha de estrofe, que troca a intonação animada predominante para uma mais ameaçadora por um momento - algumas composições de Harrison conseguem evocar muito interessantemente humores mais ambíguos, embora por fim negativos, através de contrastes de melodia com dissonância; a terceira contribuição do Beatle quieto a Revolver, I Want To Tell You, é um bom exemplo disso.
A antes mencionada é uma manifestação musical da incapacidade de Harrison de se expressar em palavras, através não só da letra, mas também, e mais importantemente, da dissonância dos acordes e o contraste desses com os backing vocals harmonizados, estes como pontas de icebergs de idéias presos debaixo do mar, que transmitem a névoa de ânsia e confusão pretendidas ao ouvinte. Novamente, os pequenos detalhes interessam (um resultado dos Beatles começando a editar mais as músicas em estúdio): no fim da música, Paul canta notas diferentes em seu backing vocal numa cadência ao estilo da música indiana, referenciando às influências crescentes da mesma no som da banda - melhor evidenciadas, é claro, em outra composição de George corajosamente colocada em Revolver, Love You To. Digo corajosamente porque é uma faixa ainda mais radical que as outras menos convencionais do álbum, como Eleanor Rigby, por misturar instrumentação indiana como sítars e tablas, assim como escalas e timbres da mesma origem com convenções pop ocidentais, e tomar a música indiana como base para a sonoridade, não a marginalizando como uma mera curiosidade numa canção de qualquer outra maneira normal.
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| Harrison, sua namorada Pattie Boyd e uma sítar. |
Tais influências orientais são importantes para outra progressão do som dos Beatles, a psicodelia (que, no final, é apenas uma progressão em direção à inconvencionalidade, à experimentação, a uma progressão mais importante ainda, mas chegaremos lá). Auxiliados pelas suas experiências recentes com o LSD, os Beatles acabaram por desenvolver um gosto mais agudo pelo esquisito e espiritual, que atinge o seu ápice mais tarde, e é representado aqui por coisas como o solo de guitarra revertido em I'm Only Sleeping, que complementa o seu tema onírico, letras como "I know what it's like to be dead" de She Said She Said e, principalmente, pela fechadora Tomorrow Never Knows - um banquete aural de vozes aceleradas até parecerem gaivotas, guitarras, orquestras e outras coisas distorcidas pelo tempo, que dão uma incrível impressão de surrealidade enquanto John Lennon, acompanhado pelo ritmo-mantra quebrado de Ringo, te guia pelo Nada brilhante. Com esta adição temática ao som da banda, os Beatles começaram a transmitir emoções mais abstratas ao ouvido alheio.
A dupla Lennon e McCartney provém o grosso do álbum com canções mais regulares, mas de maneira alguma ruins. Nem mesmo a Doctor Robert de John Lennon, que sofre um pouco pela melodia um tanto seca - felizmente remediada, sem trocadilho intendido, pelo teor folk da letra da música, evocando a figura homônima e tornando-o interessante; e pelo coro contrastantemente etéreo do refrão, simbolizando os efeitos das drogas do bom doutor -, pode ser considerada descartável. Nelas, também é mais evidente um tipo de dualidade musical entre os dois - Lennon é mais agressivo em geral, por exemplo, preferindo utilizar guitarras altas como instrumentos centrais, em comparação com os arranjos mais sofisticados, variados e suaves de McCartney, assim como suas melodias. Tais características são tanto virtudes como defeitos - por exemplo, tomando Paul em consideração, aqui, a sua triste-linda balada For No One soa um tanto leve demais e seu hino à maconha Got To Get You Into My Life podia ter sido beneficiada com um pouco da agressão de Lennon - e um equilíbrio entre as duas e também as de George e Ringo produziu algumas das melhores obras do Fab Four.
Revolver é, por fim, transicional, no sentido dos Beatles ainda terem muito potencial para desenvolver, mas mesmo uma peça de transição de um dos, senão o, mais reconhecidos grupos de rock do mundo - e merecidamente assim, considerando o seu imenso talento e, por um tempo, sinergia - é ótima música.
Baixar aqui, em 320 kbps. Senha é seagull.


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