A espera foi longa,
longa até demais; mas pelo jeito, tudo aconteceu na hora que era pra acontecer.
Passei os últimos seis anos esperando por uma oportunidade de estar à frente de
Riley Ben King, de poder ver, ouvir e sentir cada bend que o velho Blues Boy
tocasse na sua querida Lucille. Já estava começando a ficar frustrado, afinal,
B.B. já estava com 86 anos e nada de aparecer notícias sobre uma nova vinda ao
Brasil. Este ano, a oportunidade se apresentou: o show cairia no dia 2 de outubro
no teatro Guaíra, lá em Curitiba – e como eu disse tudo aconteceu na hora que
era pra acontecer. Meu aniversário, casualmente, é no dia 2 de outubro; então
vocês podem imaginar o quão ansioso eu estive ao longo dos dois meses de
espera, desde que tinha comprado meu ingresso.
O tempo parecia se
arrastar até o dois de outubro. Completar 23 anos era o que menos importava; o
que realmente martelava em meu cérebro é que eu precisava ver um show do Rei do
Blues. Quando finalmente chegou a hora de partir, eu me sentia pronto. Já
estava imerso na atmosfera certa depois de passar várias horas consecutivas
ouvindo cada fase da carreira de King. Cheguei a Curitiba ainda de manhã, junto
com um ex-colega, e passamos o dia tentando achar algo que nos ocupasse até a
hora do show, que começaria às 21h. Cerveja vai, cerveja vem – é chegada a hora
do último descanso antes de ir para o Teatro Guaíra para retirar os ingressos.
A
última longa espera
Retirados os ingressos,
ainda faltava uma hora e meia para o show. Foram, provavelmente, os 90 minutos
mais longos da minha vida. Como o concerto estava marcado para as nove da
noite, acreditei que, no máximo, às oito e meia as portas já teriam sido
abertas – doce engano; houve um atraso de alguns minutos que pareceram dias. Eu
suava, quase tremia, suspirava tensa e longamente enquanto os portões do
paraíso não se abriam.
A
orquestra maioral
Abriram-se as portas e
todos corremos para dentro. Estranhamente não houve revista nem nada do gênero,
passamos direto pelos seguranças e nos dirigimos ao segundo andar do teatro
para ingressar no auditório onde aconteceria o evento. No meu caso, tive mais
dois lances de escada para subir. O tempo foi passando e as pessoas foram se
acomodando em seus lugares. Era quase nove e meia da noite quando finalmente
foi anunciado o show da banda de abertura – uma banda da qual eu ainda não
havia ouvido falar. Fiquei apreensivo, a princípio, pois não havia sido
anunciado em nenhum lugar que haveria uma banda de abertura – e já estávamos
meia hora atrasados.
O hoster da casa
anunciou e os caras entraram no palco: Big Time Orchestra, nossa orquestra
maioral. Uma banda de swing no melhor estilo Big Bad Voodoo Daddy, os caras
entraram já mandando um som autoral. E o tom da apresentação foi uma mescla entre
sons próprios e versões muito bem boladas: eu não podia deixar de sorrir e de
dançar sentado na minha cadeira lá no fundo do teatro, no balcão 2. Era meu
aniversário e os caras estavam dando um ritmo de festa ao evento. Dos covers,
dou destaque especial a uma ótima versão de “Have You Ever Seen The Rain”, do
Creedence Clearwater Revival, e “Mr Pinestripe Suit”, do Big Bad Voodoo Daddy.
O show dos rapazes finalmente chegava ao fim – era hora de preparar o palco
para a entrada do Rei e seus comparsas.
A
melhor banda do mundo
Assim que o palco foi
arrumado, o hoster da casa anunciou a banda de B.B. King. A galera foi à
loucura e eu já estava tremendo de ansiedade, mal pude conter o balançar das
minhas pernas. Os caras passaram o som rapidinho, dando uma última conferida
nos volumes e na equalização e logo estavam no palco. Eu avisei para a moça ao
meu lado que ainda demoraria para o Rei entrar em cena, pois era um costume
antigo deixar a banda tocar dois ou três músicas primeiro. Dito e feito: os
caras tocaram. E tocaram muito bem! Uma cozinha sólida feito uma rocha ditava o
ritmo, enquanto Boogaloo, o bandleader, comandava não só a excelente sessão de
metais, mas todo mundo. O guitarrista, Charles Dennis, é uma fera e roubou a
cena! O cara foi simplesmente demais, o show todo. Mas logo era chegada do
maior membro da banda aparecer: depois de três canções, o apresentador oficial
do B.B., que viaja com ele para todos os cantos, avisou que o Rei estava
chegando.
O
maior maestro do blues
Com o anúncio, a galera
foi ao frenesi – e eu travei. Estava tão nervoso que mal podia pensar no que
estava sentindo, mas agora vejo que foi uma mistura de muita coisa. Para ser
sincero, quando King entrou no palco, quase chorei – era difícil de acreditar
que, enfim, eu estava presente em um show dele e, ainda por cima, justo no dia
do meu aniversário!
B.B. sentou em sua
cadeira depois de saudar a platéia, falou um pouco conosco e tocou um tema
instrumental antes de realmente começar o show. E que começo! Já sem fôlego, vi
e ouvi o rei mandar uma excelentíssima I Need You So – e acho que isso é uma
síntese do que eu sentia naquele exato momento; eu realmente precisava muito
dele, da música dele. A galera assobiava, aplaudia nos intervalos, todo mundo
pirando na magia que rolava no ar, emanada de um simpático senhor de 87 anos de
idade.
De I Need You So, fomos
para Rock Me Baby e B.B. seguiu brincando com a plateia. Eu já estava me
soltando mais, a tensão havia se dissipado, dando lugar a um sentimento sublime
de realização. Dancei, ainda que sentado, freneticamente ao som de Rock Me Baby
e logo o público aterrissou de cabeça na chave para a autoestrada. De Key To
The Highway, seguimos em velocidade moderada até um som bastante inusitado: You
Are My Sunshine. Sempre brincando e comandando o público, o maior maestro do
blues guiou a plateia na cantoria e fez com que repetíssemos em uníssono: “You are my sunshine, my only sunshine/You
make me happy when skies are gray/You'll never know dear, how much I love
you/Please don't take my sunshine away”. E era verdade: ele era o raio de
sol que iluminava a lua naquela noite em Curitiba. Logo ele mandou When Love
Comes To Town e eu já estava exultante.
O que se via era um
B.B. consciente de sua idade, dando espaço para os músicos da banda aparecerem
também, e o público soube reconhecer isso, aplaudindo insanamente a cada bom
solo. Mas nada no mundo poderia me preparar para o próximo ato daquela ópera da
minha vida, ainda que eu tivesse esperado impacientemente por ela: The Thrill
Is Gone; ainda que numa versão encurtada, ainda era A música. Eu explodi
internamente e novamente me peguei quase aos prantos. Era demais, surreal. Com
uma breve dedicatória a um casal, B.B. emendou Guess Who logo na sequência – eu
já sentia que poderia morrer feliz, já estava completo, musicalmente falando.
Aí veio uma canção do
disco novo, One Kind Favor de 2008, chamada See That My Grave Is Kept Clean.
Tudo corria perfeitamente e eu já não podia deixar de sorrir. A seguir houve um
tema instrumental que não pude reconhecer, mas logo chegamos a mais
brincadeiras e uma interação fantástica com o público. Ele estava se preparando
para mais um pouco de You Are My Sunshine quando o Rei nos disse que Willie
Nelson era uma de suas pessoas favoritas. Como ele já havia feito em Thrill Is
Gone/Guess Who, B.B. encaixou perfeitamente aquele excerto ao jazz standard
When The Saints Go Marching In. Nesse momento senti um pouco de vergonha dos
meus companheiros de teatro: quando B.B. pedia para que cantassem, eles não
acompanharam, ou não souberam acompanhar, não sei dizer ao certo.
Vendo que dali não
tinha mais o que tirar, King seguiu a canção até o seu fim. Anunciando que a
apresentação estava acabando, Riley perguntou-nos se ele poderia tocar mais uma
canção. O coro de vozes extenuadas, mas sedentas por mais emoção rugiu: YES! E
apesar dos vários pedidos que emergiram da platéia, quem manda no espetáculo é
o maestro – e ele decidiu que a peça encerraria com um som muito emblemático:
Everyday I Have The Blues. E era bem assim que eu me sentia: dali pra frente,
eu teria o blues todos os dias. A confortante recordação de uma noite
fantástica me acompanhará para sempre.
(P.S.: Não fui eu quem gravou os vídeos, portanto peço desculpas caso a qualidade esteja baixo, mas foi o que pude encontrar pra vocês)


Nada como um show pra lavar a alma!! Estar diante de um ídolo, trocando energias é realmente sublime. E vc ainda teve isso no dia do aniversário, que presentão!! A banda dele realmente é demais e ele é uma simpatia. Longa vida ao Blues! Espero que eu ainda veja mtos shows assim, com artistas de felling, pois cada show é uma emoção única.
ResponderExcluir