quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Uma noite com o Rei - B.B. King, Teatro Guaíra, 02/10/2012



A espera foi longa, longa até demais; mas pelo jeito, tudo aconteceu na hora que era pra acontecer. Passei os últimos seis anos esperando por uma oportunidade de estar à frente de Riley Ben King, de poder ver, ouvir e sentir cada bend que o velho Blues Boy tocasse na sua querida Lucille. Já estava começando a ficar frustrado, afinal, B.B. já estava com 86 anos e nada de aparecer notícias sobre uma nova vinda ao Brasil. Este ano, a oportunidade se apresentou: o show cairia no dia 2 de outubro no teatro Guaíra, lá em Curitiba – e como eu disse tudo aconteceu na hora que era pra acontecer. Meu aniversário, casualmente, é no dia 2 de outubro; então vocês podem imaginar o quão ansioso eu estive ao longo dos dois meses de espera, desde que tinha comprado meu ingresso.

O tempo parecia se arrastar até o dois de outubro. Completar 23 anos era o que menos importava; o que realmente martelava em meu cérebro é que eu precisava ver um show do Rei do Blues. Quando finalmente chegou a hora de partir, eu me sentia pronto. Já estava imerso na atmosfera certa depois de passar várias horas consecutivas ouvindo cada fase da carreira de King. Cheguei a Curitiba ainda de manhã, junto com um ex-colega, e passamos o dia tentando achar algo que nos ocupasse até a hora do show, que começaria às 21h. Cerveja vai, cerveja vem – é chegada a hora do último descanso antes de ir para o Teatro Guaíra para retirar os ingressos.

A última longa espera

Retirados os ingressos, ainda faltava uma hora e meia para o show. Foram, provavelmente, os 90 minutos mais longos da minha vida. Como o concerto estava marcado para as nove da noite, acreditei que, no máximo, às oito e meia as portas já teriam sido abertas – doce engano; houve um atraso de alguns minutos que pareceram dias. Eu suava, quase tremia, suspirava tensa e longamente enquanto os portões do paraíso não se abriam.

A orquestra maioral

Abriram-se as portas e todos corremos para dentro. Estranhamente não houve revista nem nada do gênero, passamos direto pelos seguranças e nos dirigimos ao segundo andar do teatro para ingressar no auditório onde aconteceria o evento. No meu caso, tive mais dois lances de escada para subir. O tempo foi passando e as pessoas foram se acomodando em seus lugares. Era quase nove e meia da noite quando finalmente foi anunciado o show da banda de abertura – uma banda da qual eu ainda não havia ouvido falar. Fiquei apreensivo, a princípio, pois não havia sido anunciado em nenhum lugar que haveria uma banda de abertura – e já estávamos meia hora atrasados.


O hoster da casa anunciou e os caras entraram no palco: Big Time Orchestra, nossa orquestra maioral. Uma banda de swing no melhor estilo Big Bad Voodoo Daddy, os caras entraram já mandando um som autoral. E o tom da apresentação foi uma mescla entre sons próprios e versões muito bem boladas: eu não podia deixar de sorrir e de dançar sentado na minha cadeira lá no fundo do teatro, no balcão 2. Era meu aniversário e os caras estavam dando um ritmo de festa ao evento. Dos covers, dou destaque especial a uma ótima versão de “Have You Ever Seen The Rain”, do Creedence Clearwater Revival, e “Mr Pinestripe Suit”, do Big Bad Voodoo Daddy. O show dos rapazes finalmente chegava ao fim – era hora de preparar o palco para a entrada do Rei e seus comparsas.

A melhor banda do mundo

Assim que o palco foi arrumado, o hoster da casa anunciou a banda de B.B. King. A galera foi à loucura e eu já estava tremendo de ansiedade, mal pude conter o balançar das minhas pernas. Os caras passaram o som rapidinho, dando uma última conferida nos volumes e na equalização e logo estavam no palco. Eu avisei para a moça ao meu lado que ainda demoraria para o Rei entrar em cena, pois era um costume antigo deixar a banda tocar dois ou três músicas primeiro. Dito e feito: os caras tocaram. E tocaram muito bem! Uma cozinha sólida feito uma rocha ditava o ritmo, enquanto Boogaloo, o bandleader, comandava não só a excelente sessão de metais, mas todo mundo. O guitarrista, Charles Dennis, é uma fera e roubou a cena! O cara foi simplesmente demais, o show todo. Mas logo era chegada do maior membro da banda aparecer: depois de três canções, o apresentador oficial do B.B., que viaja com ele para todos os cantos, avisou que o Rei estava chegando.

O maior maestro do blues

Com o anúncio, a galera foi ao frenesi – e eu travei. Estava tão nervoso que mal podia pensar no que estava sentindo, mas agora vejo que foi uma mistura de muita coisa. Para ser sincero, quando King entrou no palco, quase chorei – era difícil de acreditar que, enfim, eu estava presente em um show dele e, ainda por cima, justo no dia do meu aniversário!


B.B. sentou em sua cadeira depois de saudar a platéia, falou um pouco conosco e tocou um tema instrumental antes de realmente começar o show. E que começo! Já sem fôlego, vi e ouvi o rei mandar uma excelentíssima I Need You So – e acho que isso é uma síntese do que eu sentia naquele exato momento; eu realmente precisava muito dele, da música dele. A galera assobiava, aplaudia nos intervalos, todo mundo pirando na magia que rolava no ar, emanada de um simpático senhor de 87 anos de idade.

De I Need You So, fomos para Rock Me Baby e B.B. seguiu brincando com a plateia. Eu já estava me soltando mais, a tensão havia se dissipado, dando lugar a um sentimento sublime de realização. Dancei, ainda que sentado, freneticamente ao som de Rock Me Baby e logo o público aterrissou de cabeça na chave para a autoestrada. De Key To The Highway, seguimos em velocidade moderada até um som bastante inusitado: You Are My Sunshine. Sempre brincando e comandando o público, o maior maestro do blues guiou a plateia na cantoria e fez com que repetíssemos em uníssono: “You are my sunshine, my only sunshine/You make me happy when skies are gray/You'll never know dear, how much I love you/Please don't take my sunshine away”. E era verdade: ele era o raio de sol que iluminava a lua naquela noite em Curitiba. Logo ele mandou When Love Comes To Town e eu já estava exultante.

O que se via era um B.B. consciente de sua idade, dando espaço para os músicos da banda aparecerem também, e o público soube reconhecer isso, aplaudindo insanamente a cada bom solo. Mas nada no mundo poderia me preparar para o próximo ato daquela ópera da minha vida, ainda que eu tivesse esperado impacientemente por ela: The Thrill Is Gone; ainda que numa versão encurtada, ainda era A música. Eu explodi internamente e novamente me peguei quase aos prantos. Era demais, surreal. Com uma breve dedicatória a um casal, B.B. emendou Guess Who logo na sequência – eu já sentia que poderia morrer feliz, já estava completo, musicalmente falando.


Aí veio uma canção do disco novo, One Kind Favor de 2008, chamada See That My Grave Is Kept Clean. Tudo corria perfeitamente e eu já não podia deixar de sorrir. A seguir houve um tema instrumental que não pude reconhecer, mas logo chegamos a mais brincadeiras e uma interação fantástica com o público. Ele estava se preparando para mais um pouco de You Are My Sunshine quando o Rei nos disse que Willie Nelson era uma de suas pessoas favoritas. Como ele já havia feito em Thrill Is Gone/Guess Who, B.B. encaixou perfeitamente aquele excerto ao jazz standard When The Saints Go Marching In. Nesse momento senti um pouco de vergonha dos meus companheiros de teatro: quando B.B. pedia para que cantassem, eles não acompanharam, ou não souberam acompanhar, não sei dizer ao certo.

Vendo que dali não tinha mais o que tirar, King seguiu a canção até o seu fim. Anunciando que a apresentação estava acabando, Riley perguntou-nos se ele poderia tocar mais uma canção. O coro de vozes extenuadas, mas sedentas por mais emoção rugiu: YES! E apesar dos vários pedidos que emergiram da platéia, quem manda no espetáculo é o maestro – e ele decidiu que a peça encerraria com um som muito emblemático: Everyday I Have The Blues. E era bem assim que eu me sentia: dali pra frente, eu teria o blues todos os dias. A confortante recordação de uma noite fantástica me acompanhará para sempre.

(P.S.: Não fui eu quem gravou os vídeos, portanto peço desculpas caso a qualidade esteja baixo, mas foi o que pude encontrar pra vocês)

Um comentário:

  1. Nada como um show pra lavar a alma!! Estar diante de um ídolo, trocando energias é realmente sublime. E vc ainda teve isso no dia do aniversário, que presentão!! A banda dele realmente é demais e ele é uma simpatia. Longa vida ao Blues! Espero que eu ainda veja mtos shows assim, com artistas de felling, pois cada show é uma emoção única.

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