Junto com All Things Must Pass e Band On The Run (de Harrison e McCartney, respectivamente), este álbum conta-se entre as melhores peças solo já produzidas por um ex-Beatle. Definido mais pessoalmente, JL/PON é um exorcismo dos demônios de John e do peso remanescente da dolorosa quebra dos Beatles, que não eram meros músicos juntos numa banda - eram amigos, quase que como uma família. Entre os alvos dos sentimentos despejados estão Deus, Paul, o hinduísmo de George, a sociedade, a família - não é a toa que a faixa de abertura é "Mother", uma confissão da saudade sentida por John pelos seus pais ausentes (o seu pai abandonou-o quando era uma criança e a mãe não morava com o filho, apesar de manter contato, até ser morta quando John tinha 17) e algo que ele nunca poderia ter feito no ambiente dos Beatles. A gritaria no final da música (assim como em "Well Well Well" e no single "Cold Turkey", incluído aqui por conveniência e por Clapton) é a confirmação final das intenções do artista - de botar tudo pra fora -, além de ser, claro, um momento lindo de catarse posta em física; e nesta tentativa de explicação, não se pode ser deixado de lado o fato de Lennon ter passado, na época, por um tratamento psicológico chamado "primal therapy", ou em bom e velho português, "terapia primária", que envolve justamente a sensação e exposição de dores e traumas reprimidos.
| A Plastic Ono Band. De esquerda à direita, Klaus Voormann, Alan White, Yoko, John e Eric Clapton. Faltando os seus vários outros membros, é claro - entre os quais, Billy Preston e Ringo. |
Mas este também é um álbum sobre identidade. Traumáticas como foram as últimas experiências de John como Beatle, é de se supor que o saco deste foi enchido quanto aos floreios sonoros quase inevitáveis no já mencionado ambiente do quarteto de Liverpool e que a sonoridade mais crua, assim como a honestidade bruta das letras, sejam evidências que apontam à procura por um caminho mais verdadeiro a sua pessoa. "Beware of maya", disse George mais cedo em 1970, e certamente as ilusões percebidas por John residem no estilo mais mccartneyano de proficiência técnica e floreios estéticos sem muito impacto pessoal. (Na filosofia e religião hindu, "maya" tem vários significados, mas o mais comum deles é "ilusão" - uma máscara por cima da verdade, comumente relacionada com a concepção de que pensamos ser criaturas apenas físicas, de carne, enquanto na verdade possuímos dimensões mais espirituais, transcendentais, "escondidas" por maya. Considerando John Lennon, acredito que ele não se via como um ser espiritual, mas que esse conceito ainda assim seja útil neste caso, apenas substituindo seus elementos transcendentais por sentimentos e pensamentos quanto à identidade e à verdade. O trecho citado é de "Beware of Darkness", do ótimo All Things Must Pass)
Para ilustrar essa diferença, vamos comparar uma das contribuições mais notórias dele aos Beatles: "I am the Walrus", de 1967. Esta é um desfile de imagens coloridas e bonitinhas, sons engraçados e letra nonsense (sem querer rebaixar esse ótimo pedaço de psicodelia) - três anos depois, porém, cá está Lennon com músicas como o punk-blues de "Well Well Well" e o "Working Class Hero" inspirado por e digníssimo do bardo Zimmerman, que são mais como uma xícara de café amargo numa manhã nublada de privação de sono num boteco cinza e azul. Que homem era John Lennon, capaz de viajar com fluidez do psicodélico açucarado até a mais áspera e pontiaguda raiva!
Mas esta é de maneira nenhuma uma obra monocromática. Por exemplo - do bonitinhíssimo "Hold On" (cujo estilo e timbre suave de guitarra fazem amor com os meus ouvidos) emana-se esperança e de "Love", aquele amor ligeiramente dolorido, que não deixa de ser bom; deixando aqui de citar várias outras radiações. E enquanto a conclusão do álbum é um reforço ao seu tom predominantemente amargo, tendo em mente o vazio monótono de choque com pingos de desespero diante da morte da sua mãe e a iconoclastia de "God", a mensagem final de John é uma de auto-identidade, de verdade a si mesmo. Por mais ácidas que sejam as suas declarações, John é sempre construtivo, procurando caminhos através dos seus espinhos, ao invés de se acomodar na dor confortável, que é sempre mais fácil de ser sentida do que trabalhada.
Esta é uma obra de dor, mas ela é necessária para a abertura de outras coisas - a regeneração, o amor, o perdão e a esperança de Imagine, para citar algumas. Bom proveito - melhor ouvido numa manhã nublada e fria.
"I was the Walrus, but now I'm John".
Baixar aqui. A senha para o arquivo é k4rmap3ople. Inclusas estão as músicas "Give Peace A Chance", "Cold Turkey", "Instant Karma", "Power To The People" e "Happy Xmas (War Is Over) / Give Peace A Chance (Reprise)", todos singles lançados na época, tirados da compilação Shaved Fish.
Mas esta é de maneira nenhuma uma obra monocromática. Por exemplo - do bonitinhíssimo "Hold On" (cujo estilo e timbre suave de guitarra fazem amor com os meus ouvidos) emana-se esperança e de "Love", aquele amor ligeiramente dolorido, que não deixa de ser bom; deixando aqui de citar várias outras radiações. E enquanto a conclusão do álbum é um reforço ao seu tom predominantemente amargo, tendo em mente o vazio monótono de choque com pingos de desespero diante da morte da sua mãe e a iconoclastia de "God", a mensagem final de John é uma de auto-identidade, de verdade a si mesmo. Por mais ácidas que sejam as suas declarações, John é sempre construtivo, procurando caminhos através dos seus espinhos, ao invés de se acomodar na dor confortável, que é sempre mais fácil de ser sentida do que trabalhada.
Esta é uma obra de dor, mas ela é necessária para a abertura de outras coisas - a regeneração, o amor, o perdão e a esperança de Imagine, para citar algumas. Bom proveito - melhor ouvido numa manhã nublada e fria.
"I was the Walrus, but now I'm John".
Baixar aqui. A senha para o arquivo é k4rmap3ople. Inclusas estão as músicas "Give Peace A Chance", "Cold Turkey", "Instant Karma", "Power To The People" e "Happy Xmas (War Is Over) / Give Peace A Chance (Reprise)", todos singles lançados na época, tirados da compilação Shaved Fish.
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